Resenha – Objetos Cortantes – Gillian Flynn

Mais uma resenha para o canal do Literatortura. Dessa vez, falo da obra “Objetos Cortantes”, da autora Gillian Flynn, que também escreveu “Garota Exemplar”.

Confiram!

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Não vai ficar tudo bem

Quando eu era mais novo, minha mãe sempre me dizia, nos momentos de tristeza: vai ficar tudo bem. Um dia as coisas se acertam. Essa briga com a namorada vai passar. Se não, outra menina vai surgir e você nem se lembrará dessa dor de cotovelo. Se as coisas não vêm dando certo na escola, é temporário. Você vai sair dessa. Tudo passa, tudo passará. Vai ficar tudo bem.

Hoje, não acredito mais nisso. É a lição mais valiosa – e dolorosa – que tirei da vida: independente do que acontecer, a vida não vai melhorar. A dor de cotovelo é substituída por outra logo em seguida. Ou alguém da família adoece. Não aconteceu? O emprego recém-adquirido é uma merda e você não está fazendo o que quer. A carreira está de vento em popa? Mas você viaja tanto, mal tem tempo para os amigos! E esse vazio na alma insiste em te deixar melancólico, não tem jeito.

Deus do céu, onde isso vai parar?

A verdade é que não pára. Nunca. Embora tenhamos tanta dificuldade em admitir. Fico impressionado como todo fim de ano as pessoas reclamam dos meses anteriores e dão graças aos céus por ter que comprar um novo calendário.

“Que ano horrível, ainda bem que acabou”.

Mal percebem que a mesma frase é repetida a cada dezembro, sem exceção, desde que elas conheceram as amarguras da própria vida.

Quando um ano acaba, não espero que o seguinte seja melhor. Já perdi essa inocência. Penso: vai ser igual ou pior, mas vou estar com mais gana de ir atrás do que desejo. Mesmo que não signifique nada. Mesmo que eu não consiga.

Porque é isso que vale, no fim das contas. O ano não vai ser melhor, você não vai chegar à idade paradisíaca em que tudo é como você sempre sonhou. Não vai ficar tudo bem. Ainda assim, você pode ir em frente, cada vez mais forte, e pronto para levar cada vez mais porrada. No meio do caminho tem algumas alegrias esperando. Eu garanto. A vida humana é uma sucessão de dores intercaladas por felicidades fáceis de esquecer.

Pode parecer que essas são idéias de um pessimista sem vontade de viver, mas não. Adoro essa coisa toda. Temos décadas disso pela frente, depois morreremos. Então, por que ficar se revoltando? É o que tem para hoje. Melhor estar consciente da situação do que ficar à espera das condições perfeitas que nos deixariam num estado de iluminação e plenitude máximas. Esperança é bom, mas essa é uma esperança ilusória. Não vai ficar tudo bem.

Entende? Não vai.

Saber disso pode ser nossa única salvação.

Eu Destruí Aquela Vida – Victor Gomes

Saiu uma resenha sobre EU DESTRUÍ AQUELA VIDA, meu romance de estreia. Confiram!

Aquela Leitura

Esse não foi um livro que eu encontrei, acho que fui encontrado por ele. O Jovem autor, Victor Gomes, é um amigo meu e este é seu primeiro romance, lançado ano passado pela Editora Zap Book. Adquiri meu exemplar no evento de lançamento que aconteceu em novembro, sei que tou meio atrasado em postar isso, mas finalmente resolvi quietar e escrever um pouco sobre o livro.

Roberto Linhares, um professor da Universidade de Brasília especializado em ética, mantém um caso fora de seu casamento, com uma aluna. É essa atitude tão contraditória que desperta a atenção de um caótico e entediado deus que resolve brincar com a vida de Roberto e por suas crenças à prova. É num acidente de carro que acontece num momento de extrema delicadeza que a vida e a mente do protagonista são tiradas do lugar, especialmente após a aparição de Marcelo, um mendigo enviado até Roberto…

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Adeus, ano velho

     Não resisti à retrospectiva para o ano novo, embora um pouco tardia. Parece que a magia desta época é inescapável, então, por que se privar desse possível instrumento de renovação?

     Em muitos sentidos, 2014 foi um ano terrível para muita gente, inclusive para mim. Perdi um ente querido, tive problemas de relacionamento, chorei muito. Vi pessoas que sempre admirei se afogarem nos próprios dramas, e até agora não sinto a recuperação chegando. Assisti um país se dividir e se agredir sem descanso, movidos pela raiva e incompreensão que o ano eleitoral trouxe. Foi a falta de empatia beirando a insanidade. Foi triste. Perdemos, como disse o Gregório. Também assisti, mês após mês, notícias de gênios literários que deixaram esta vida. Gabriel García Marquez, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Braga. Não se enganem, faltou gente na lista. Uma geração de ícones das letras que agora não estão mais aqui para nos encantar com suas palavras. Como leitor e escritor, senti essas mortes. 2014 não foi um ano fácil.

     Por outro lado, foi o ano em que iniciei, de fato, minha carreira como autor. “Eu destruí aquela vida”, meu primeiro romance, foi publicado em meados de outubro, e tem me proporcionado ótimas experiências, pelo interesse dos leitores, que elogiam, criticam, e me mostram por que escrevo: para causar aos outros o que tantos livros já me causaram. O encanto, a emoção. A respiração presa pela ansiedade do que vem a seguir. O fim momentâneo da solidão que preenche a vida humana, através de um livro, de uma história e personagens que sofrem como eu, choram como eu, tão perdidos como eu. Por tudo isso, 2014 foi, também, um ano bom, de conquista e alegria.

     Acima de tudo, foi o primeiro ano em que tirei a conclusão óbvia, mas sempre ignorada: todo ano é cheio de alegria e desgraça e isso nunca vai mudar. No último dia de 2014, como em todos os anos anteriores, teve muita gente falando do alívio pelo fim daquele ciclo, da esperança de que o seguinte fosse melhor, menos cheio de desgosto, problema, obstáculos. Que esperança ingênua, pessoal. Os anos não melhoram nesse sentido. Claro que podemos medir o grau de dificuldade em cada período e construir um pódio de tristezas, se quisermos. Mas isso não muda o fato de que todo ano é cheio de alegrias e dissabores, desgraças e bênçãos, perdas e ganhos. E que, se não mudarmos nossa tendência de sempre enfatizar os problemas em tudo, os anos continuarão terminando com gritos de cansaço e socorro, anseios por uma nova fase, onde tudo será bonito e ameno, livre de qualquer empecilho à felicidade. Esperança vã, que não vale a pena cultivar. Melhor encarar essa dualidade existencial do ano novo e abraçá-la, pois assim abraçamos a vida. E, se nem isso fazemos, por que diabos continuar?

     Continuemos. Sem ingenuidade, mas sem pessimismo. Que o próximo ano seja melhor, embora não vá ser perfeito. Que seja repleto de metas e desistências, fracassos e conquistas, como toda vida humana. E que, em algum ponto do ano, você tenha a capacidade de olhar a própria vida e rir dessa bagunça de dores e amores que chamamos de existir. Só assim um passo significativo será dado em direção a um ano novo ou, melhor ainda: a uma nova vida. Como todos desejamos. Como é da nossa natureza perseguir. Como, tenho certeza, podemos alcançar.

     Feliz 2015 a todos e todas. Segue o baile.

Ainda não dói o suficiente

Li, outro dia, a seguinte história no The art of asking, livro da Amanda Palmer:

 

Um fazendeiro está sentado numa cadeira em sua varanda, relaxando.

Um amigo caminha até a varanda para dizer oi, e escuta um ganido horrível, um som agudo vindo de dentro da casa.

“Que som assustador é esse?”, pergunta o amigo.

“É meu cachorro”, diz o fazendeiro. “Ele está sentado em um prego.”

“Por que ele só não sai de cima do prego?”, pergunta o amigo.

“Ainda não dói o suficiente.”

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A beleza das histórias está nesse poder mágico que elas têm de nos acertar um soco na cara e escancarar verdades simples, mas facilmente ignoradas. É o principal motivo de gostarmos tanto delas.

Lendo a história, talvez você tenha a mesma sensação que eu. Ao fim da narrativa, uma pontada e o pensamento inequívoco: as pessoas precisam de tempo para querer parar de sofrer. E em seguida a conclusão inevitável e ainda assim dolorosa: eu não sou diferente de todo mundo.

Parece senso-comum que a gente não quer sofrer, mas isso é mentira. O sofrimento é condição determinante da condição humana e, por isso mesmo, nossa relação com ele não é tão fácil de determinar através de negativas tão simples. Porque na verdade, muitas vezes, nós queremos. Não de maneira explícita e masoquista, mas queremos. E você não pode negar.

Quantas pessoas você conhece que já estiveram num relacionamento fracassado, mas se recusavam a deixar o barco afundar? Quantas pessoas se mantiveram em relações familiares, profissionais, amorosas ou de amizade que eram abusivas, intoleráveis, mas, ainda assim, toleradas? E por mais tempo do que parecia humanamente possível. Ou, então, é aquela pessoa que continua persistindo na mesma atitude, que sempre leva aos mesmos problemas, sem tirar da desgraça repetida a lição simples de que é melhor mudar o plano de ação da próxima vez. Para não se machucar, para não machucar os outros. Mas a lição da história é clara. O motivo pelo qual tanta gente – eu, você, eles todos – faz isso e muito mais é simples.

Ainda não dói o suficiente.

No que me diz respeito, fico alegre de saber que, eventualmente, a hora chega. Felizmente tenho o costume de aprender, mesmo que demore. E tento ver que, se demora, é por limitação minha, e isso eu posso melhorar.

No meu livro, o protagonista se envolve em diversos problemas, que tornam sua vida um inferno. O elemento fantástico do romance é o deus cruel, que mexe os pauzinhos para brincar com o personagem, tudo por estar entediado. Mas tem algo bem interessante: nada aconteceria se não fossem as ações do personagem. O deus não força, só incentiva. Que nem todos nós, com nossos pregos existenciais e nossos donos fazendeiros, que deixam o prego ali, mas não nos forçam a sentar em cima dele. E nós, cães da vida, sentamos. Não só isso, mas deitamos, sangramos, fincamos o prego mais fundo, sempre dando uma desculpa: “Esse ano de crise é só uma fase ruim do nosso relacionamento de um ano”; “Não é meu emprego dos sonhos, mas eu ganho muito bem”; “Todo mundo têm problemas familiares”. O prego é besteira, melhor deixar quieto. E continuamos lá, até não dar mais, até dizermos chega – até doer o suficiente.

Às vezes o prego é importante demais para nós abdicarmos dele. E isso eu respeito, embora não entenda muito bem. Mas, na maioria das vezes, não é. Porque é sempre mais importante parar de doer.

Então ficou para mim a seguinte lição, que tentarei sempre repetir quando o prego incomodar: preste atenção, cão da vida. Preste atenção, e faça a dor ser suficiente logo. Até que o próximo prego venha, e você tenha a chance de mostrar se aprendeu ou não. E de novo, e de novo, e de novo. Do jeito que é. Do jeito que precisa ser.

Do jeito que nos faz humanos.

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E Deus, morreu ou não?

O filme saiu há um bom tempo, numa época em que não deu para escrever sobre, mas pensei que valia uma palavra a respeito. A coluna de hoje é sobre “Deus não está morto”, que defino como um panfleto audiovisual de péssima qualidade. Tentarei não dar spoilers cruciais, mas será inevitável contar algumas coisas sobre a trama, então, estejam avisados.

Premissa: o jovem Josh Wheaton entra na universidade e precisa cursar uma disciplina de filosofia. Porém, o professor da disciplina é ateu e exige, na primeira aula, que os estudantes escrevam em um papel a célebre frase de Nietzsche: “Deus está morto”. Um bom modo, segundo ele, de pular a parte “desnecessária” do curso onde se debate sobre a existência de uma “fantasia humana”, ou seja, o bom e velho deus dos teístas.

Josh se recusa. O professor, irado, diz que o estudante terá, então, que defender a existência de Deus na aula. Combinam que os alunos irão julgar se o jovem foi bem sucedido em sua defesa. Se ele for, consegue passar na disciplina. Se não…

Essa é a premissa para um filme de apologia ao cristianismo que consegue ser tanto desonesto quanto de péssima qualidade. Meu desagrado com o filme se baseia em diversos pontos. Vamos a eles.

Em primeiro lugar, o maniqueísmo. O universo bizarro que eles criam na película se divide entre bons/católicos e maus/não-católicos. A começar pelo professor ateu, que é a encarnação do diabo. Um homem amargurado, egoísta, arrogante e odioso. Ele é o Grande Inquisidor, e não mede esforços para destroçar os sonhos do jovem Josh, meramente pelo fato de que ele crê em Deus Pai Todo Poderoso.

Mas não pára por aí. Temos um muçulmano que odeia Jesus e não aceita que a filha acredite nele, um pai que não está nem aí para Deus e é (claro) um pai ausente, uma cristã meia-boca que liga mais pras “coisas do mundo”. Tem de tudo, para todos os gostos. E, sem exceção, os que não professam com fervor o catolicismo são pintados com as piores cores e sentimentos. São pessoas violentas, egoístas, intolerantes e preconceituosas. Em suma, gente do mal.

Mas os católicos… Ah, os católicos! Esses são gente boa! Caridosos, gentis, ajudam as velhinhas a atravessar na rua, devolvem o troco errado na padaria… O protagonista é um ser humano excepcional, que, contra todos os obstáculos, prossegue em sua fé, espalhando bondade, racionalidade e oratória pelos quatro cantos do mundo. Temos, também, a figura emblemática de dois padres cujo principal objetivo, durante quase todo o filme, é ir pra Disney (sim, isso aí mesmo). Mas nunca dá certo, porque o carro quebra toda vez. Mas eles não desanimam e repetem sem parar que Deus é bom. (Tem uma função pra isso na história, bem pensada, devo admitir, mas o importante é: eles são um poço de bondade e paciência, ao contrário dos não-católicos malvados).

Qual o problema disso? É falso. É desonesto. O mundo não funciona desse jeito. Eu poderia até mencionar o fato óbvio de que, se pensarmos direito, deveria ser o contrário. Bons/não-cristãos versus maus/cristãos. Isso porque os adeptos dessa religião tendem a ser bastante agressivos com todo mundo que não siga sua escolha de vida. Mas não quero defender esse ponto. Porque o mundo também não funciona assim. Tem gente ruim e boa em todos os lados do tabuleiro metafísico. O filme perde muito do valor que poderia ter ao apostar numa construção de personagens tão desonesta e tosca.

Continuando: a contrução da trama é mal-feita. Por exemplo, Josh precisava estar sozinho contra o mundo, para seu gesto de fé ter ainda mais valor. Como isso é feito? Sua principal companhia, a namorada, termina o namoro por ele decidir enfrentar o professor. Desse jeito. “Tchau, Josh, seu idiota, não vou ficar com você porque você é burro de se recusar a escrever a porra de uma frase”. É inverossímil, porque ela é cristã. E mais, eles namoram há anos. Viva a força do amor, hein? Outros exemplos abundam, mas nem vou mencioná-los, caso o leitor deseje assistir o filme. Acho que o exemplo basta.

Isso tudo já é motivo suficiente para demonstrar minha tese: o filme é ruim porque simplesmente usa qualquer recurso, por mais tosco, para atingir seu objetivo, de exaltar o cristianismo. Talvez, no entanto, o filme teria salvação (ao contrário dos ateus malvados) caso a discussão sobre a existência de Deus fosse boa. Mas não é. Não tenho como discutir detalhadamente aqui os argumentos de cada lado. Mas cabe mencionar a estrutura do debate. Funciona mais ou menos assim:

Josh menciona tal argumento e… Professor despreza, zombando e falando que ele é burro e tem um cientista genial que discorda do argumento.

Josh menciona tal argumento e… Professor despreza, zombando e falando que ele é burro e tem um cientista genial que discorda do argumento.

Aí o Josh fica mais esperto e começa a usar uns recursos de oratória maneiros que não são filosóficos ou relevantes para o debate. E o negócio começa a ficar louco, com o professor cada vez mais irado e cheio de raiva, descontando na namorada, proferindo ameaças, o desequilíbrio aumentando a cada instante!!!

Aliás, o momento em que a dinâmica muda é quando o professor menciona o problema do mal, também conhecido na forma da clássica pergunta: “Se Deus é bom e onipotente, por que a gente se lasca tanto?”. Resposta do Josh: o mal do mundo é fruto do livre arbítrio humano, ou seja, não é culpa de Deus e não cabe imputar a ele essa responsabilidade. Essa é uma defesa milenar, e muito usada até hoje por gente respeitável. Mas eis o problema: nem todo mal é fruto do livre arbítrio. Por exemplo: como o câncer grave que crianças por vezes têm, e que as obrigam a anos de sofrimento e miséria, é culpa delas ou de alguém? Como a erupção de um vulcão, que dizima a população residente nos arredores por falta de opção, é culpa dessas pessoas? Os exemplos são infindáveis. É o que se chama de mal natural, ou seja, males independentes da ação humana.

Há respostas para isso. Eu discordo delas, mas isso não é relevante. O que é? Admito que a superficialidade da discussão é compreensível. Afinal, é um filme, não um tratado de filosofia. Mas o modo como a discussão se resolve, com o professor perdendo o controle e o aluno jogando frases de efeito… É patético, porque não é argumentado, apela para a emoção. É meramente um gancho narrativo tosco para convencer o espectador de que não, Deus não está morto. E isso termina por destruir qualquer possibilidade do filme ser minimamente bom. Uma pena: a questão de Deus na narrativa pode render ótimos frutos. Não rendeu, neste caso.

Repito: o filme é um panfleto, cuja única intenção é trazer o espectador para o lado cristão da Força. Aliás, é no mínimo sugestivo que o filme tenha saído no cinema e, quase simultaneamente, no Netflix, por onde assisti. Bilheteria não pareceu uma preocupação real e, até onde sei, não funciona assim a negociação com o Netflix. No mínimo, sugestivo. Só vem confirmar o que os recursos narrativos da película já demonstraram: o objetivo é converter pela emoção barata, custe o que custar.

É por tudo isso que “Deus não está morto” é, além de um péssimo filme, uma ofensa ao espectador. E um desrespeito a cristãos decentes que defendem sua fé com mais empenho e honestidade.

Aliás, preciso dizer: não acho que Deus esteja morto, como defendi em outro canto. Mas dizer isso é tão diferente de dizer que Deus existe! E, também, muito diferente de afirmar que isso é uma coisa boa.

Conversa, aliás, que fica para outra hora.

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Meu primeiro romance foi publicado! EU DESTRUÍ AQUELA VIDA está à venda pelo site da ZAP BOOk no endereço http://goo.gl/z0FWui ou diretamente comigo pelo Facebook e Twittter. Os primeiros capítulos estão disponíveis para leitura no endereço http://goo.gl/kMIIJB

Nietzsche, o assassino de Deus?

Friedrich Nietzsche foi um filósofo polêmico, tendo arrancado aplausos e insultos de vários pensadores e simpatizantes da filosofia. Seu pensamento causou – e ainda causa – revolta em muitas pessoas por ir contra o que normalmente tomamos como mais certo e até mesmo sagrado. Um dos principais motivos para isso, parece seguro afirmar, é a sua posição majoritariamente antirreligiosa. Um aspecto dessa posição aparece de forma interessante na famosa frase “Deus está morto”, que consta na Gaia Ciência, aforismo 125:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje!

Mas, uma coisa interessante, será que essa frase é da autoria de Nietzsche?Surpreendentemente, não. Nietzsche só fez uso dela, mas não foi o primeiro. Pode-se afirmar até que Nietzsche a tomou, por assim dizer, diretamente do campo “inimigo”.

Do campo inimigo? Sim. Essa frase tem sua origem, imaginem só, dentro do cristianismo. Parece chocante, é claro: o cristianismo dizendo que Deus está morto, como assim? Mas não é tão estranho assim, caso tenhamos em mente a sexta-feira santa, em que muitos encenam e recordam (literalmente) a morte de Deus. Isso se torna mais claro se nos lembrarmos de que Jesus Cristo é, dentro da crença cristã, uma das três pessoas divinas, o Filho da Trindade; sendo assim, os cristãos podem realmente dizer que Deus está morto na Sexta-feira Santa. É justamente essa a origem da tão famosa frase usada pelo filósofo dos Alpes: a morte de Cristo na Cruz. Deus, morto.

Lutero, que iniciou a Reforma Protestante, usou essa frase em seus escritos. Inclusive, um canto luterano, que era entoado na Sexta-Feira Santa na época de Nietzsche, tinha essa frase em sua letra. Nietzsche (parece sensato dizer), que era filho e neto de pastores luteranos, certamente conhecia o canto, assim como conhecia os escritos de Lutero, tendo utilizado a frase em seus livros. Assim, quando essa frase é acusada (como já foi tantas vezes) de ser uma heresia, quem acusa esquece que a chamada heresia é reconhecida por todos os cristãos num dia específico do ano.

Apesar disso, o sentido em que os cristãos da época de Nietzsche cantavam essa frase e o sentido nietzschiano é completamente diferente. Nem poderia ser parecido, já que Nietzsche considerava o cristianismo e toda a sua metafísica – incluindo-se aí a doutrina da Trindade – uma falsidade engendrada por uma religião da decadência.  O sentido em que Nietzsche usa a frase é obscuro (como quase tudo em sua filosofia). Mas algumas hipóteses já foram levantadas. Citarei apenas uma, por questões de espaço e por ser esta, a meu ver, a única maneira coerente de entender a frase.

Nietzsche não poderia estar dizendo que Deus esteve vivo durante certo tempo e que, a partir de determinado momento, ele deixou de existir, foi morto, e que “fomos nós que o matamos”. Isso é simplesmente incoerente. Podemos entender essa frase no sentido de que a ideia de Deus não desempenha mais nenhum papel na sociedade, que teria superado a necessidade de deuses, pronta para alcançar o ideal nietzschiano do “Super-homem”: um homem que está acima dos outros, que não se deixa acorrentar por deuses ou morais, membro da cultura superior tão aclamada por Nietzsche. Deus (e com ele a religião), não teria mais nenhuma utilidade, teria se tornado descartável, teria perdido o tempo de validade. Deus teria morrido.

Mas o que podemos tirar daí? Deus está realmente morto nesse sentido?A sociedade superou Deus e não mais precisa desse conceito, estando livre da moral e religiosidade tão criticadas por Nietzsche? A resposta mais sensata, quando olhamos em volta, parece ser que não. A religião teve e continua tendo um papel fundamental na vida das pessoas, e na sociedade em geral.

Muitos orientam sua vida em torno da religião que seguem. Para esses, areligião tem papel central, é como que um norte para a existência, uma explicação para a vida e uma verdade absoluta. Alguns são ferrenhamente contra a religião, mas esta não deixa de ter seu papel para eles, ainda que seja negativo. Muitos, embora não se envolvam em questões religiosas, estão sempre adotando preceitos religiosos de modo velado. “Ajudar o próximo é o que importa” ou “Temos que aprender a perdoar” são frases bastante usadas, mesmo por não religiosos.

A religião continua tão popular como sempre. As notícias recentes da encenação da Paixão de Cristo e da Ressurreição só comprovam isso. O sentimento religioso e a atualidade da religião não diminuíram nem um pouco desde a época de Nietzsche. E, provavelmente, não diminuirão. O papel da religião na vida humana é enorme (ainda que alguns não sejam religiosos), e não temos nenhum motivo para supor que o ser humano irá “superar a religião em nome de uma história superior” ou algo do tipo. Portanto, no geral; Deus está mais vivo do que nunca.

Se isso é bom ou ruim, aí já é outra história.