Nietzsche, o assassino de Deus?

Friedrich Nietzsche foi um filósofo polêmico, tendo arrancado aplausos e insultos de vários pensadores e simpatizantes da filosofia. Seu pensamento causou – e ainda causa – revolta em muitas pessoas por ir contra o que normalmente tomamos como mais certo e até mesmo sagrado. Um dos principais motivos para isso, parece seguro afirmar, é a sua posição majoritariamente antirreligiosa. Um aspecto dessa posição aparece de forma interessante na famosa frase “Deus está morto”, que consta na Gaia Ciência, aforismo 125:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história superior a toda a história até hoje!

Mas, uma coisa interessante, será que essa frase é da autoria de Nietzsche?Surpreendentemente, não. Nietzsche só fez uso dela, mas não foi o primeiro. Pode-se afirmar até que Nietzsche a tomou, por assim dizer, diretamente do campo “inimigo”.

Do campo inimigo? Sim. Essa frase tem sua origem, imaginem só, dentro do cristianismo. Parece chocante, é claro: o cristianismo dizendo que Deus está morto, como assim? Mas não é tão estranho assim, caso tenhamos em mente a sexta-feira santa, em que muitos encenam e recordam (literalmente) a morte de Deus. Isso se torna mais claro se nos lembrarmos de que Jesus Cristo é, dentro da crença cristã, uma das três pessoas divinas, o Filho da Trindade; sendo assim, os cristãos podem realmente dizer que Deus está morto na Sexta-feira Santa. É justamente essa a origem da tão famosa frase usada pelo filósofo dos Alpes: a morte de Cristo na Cruz. Deus, morto.

Lutero, que iniciou a Reforma Protestante, usou essa frase em seus escritos. Inclusive, um canto luterano, que era entoado na Sexta-Feira Santa na época de Nietzsche, tinha essa frase em sua letra. Nietzsche (parece sensato dizer), que era filho e neto de pastores luteranos, certamente conhecia o canto, assim como conhecia os escritos de Lutero, tendo utilizado a frase em seus livros. Assim, quando essa frase é acusada (como já foi tantas vezes) de ser uma heresia, quem acusa esquece que a chamada heresia é reconhecida por todos os cristãos num dia específico do ano.

Apesar disso, o sentido em que os cristãos da época de Nietzsche cantavam essa frase e o sentido nietzschiano é completamente diferente. Nem poderia ser parecido, já que Nietzsche considerava o cristianismo e toda a sua metafísica – incluindo-se aí a doutrina da Trindade – uma falsidade engendrada por uma religião da decadência.  O sentido em que Nietzsche usa a frase é obscuro (como quase tudo em sua filosofia). Mas algumas hipóteses já foram levantadas. Citarei apenas uma, por questões de espaço e por ser esta, a meu ver, a única maneira coerente de entender a frase.

Nietzsche não poderia estar dizendo que Deus esteve vivo durante certo tempo e que, a partir de determinado momento, ele deixou de existir, foi morto, e que “fomos nós que o matamos”. Isso é simplesmente incoerente. Podemos entender essa frase no sentido de que a ideia de Deus não desempenha mais nenhum papel na sociedade, que teria superado a necessidade de deuses, pronta para alcançar o ideal nietzschiano do “Super-homem”: um homem que está acima dos outros, que não se deixa acorrentar por deuses ou morais, membro da cultura superior tão aclamada por Nietzsche. Deus (e com ele a religião), não teria mais nenhuma utilidade, teria se tornado descartável, teria perdido o tempo de validade. Deus teria morrido.

Mas o que podemos tirar daí? Deus está realmente morto nesse sentido?A sociedade superou Deus e não mais precisa desse conceito, estando livre da moral e religiosidade tão criticadas por Nietzsche? A resposta mais sensata, quando olhamos em volta, parece ser que não. A religião teve e continua tendo um papel fundamental na vida das pessoas, e na sociedade em geral.

Muitos orientam sua vida em torno da religião que seguem. Para esses, areligião tem papel central, é como que um norte para a existência, uma explicação para a vida e uma verdade absoluta. Alguns são ferrenhamente contra a religião, mas esta não deixa de ter seu papel para eles, ainda que seja negativo. Muitos, embora não se envolvam em questões religiosas, estão sempre adotando preceitos religiosos de modo velado. “Ajudar o próximo é o que importa” ou “Temos que aprender a perdoar” são frases bastante usadas, mesmo por não religiosos.

A religião continua tão popular como sempre. As notícias recentes da encenação da Paixão de Cristo e da Ressurreição só comprovam isso. O sentimento religioso e a atualidade da religião não diminuíram nem um pouco desde a época de Nietzsche. E, provavelmente, não diminuirão. O papel da religião na vida humana é enorme (ainda que alguns não sejam religiosos), e não temos nenhum motivo para supor que o ser humano irá “superar a religião em nome de uma história superior” ou algo do tipo. Portanto, no geral; Deus está mais vivo do que nunca.

Se isso é bom ou ruim, aí já é outra história.

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2 thoughts on “Nietzsche, o assassino de Deus?

  1. Pingback: E Deus, morreu ou não? | Victor Gomes

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