E Deus, morreu ou não?

O filme saiu há um bom tempo, numa época em que não deu para escrever sobre, mas pensei que valia uma palavra a respeito. A coluna de hoje é sobre “Deus não está morto”, que defino como um panfleto audiovisual de péssima qualidade. Tentarei não dar spoilers cruciais, mas será inevitável contar algumas coisas sobre a trama, então, estejam avisados.

Premissa: o jovem Josh Wheaton entra na universidade e precisa cursar uma disciplina de filosofia. Porém, o professor da disciplina é ateu e exige, na primeira aula, que os estudantes escrevam em um papel a célebre frase de Nietzsche: “Deus está morto”. Um bom modo, segundo ele, de pular a parte “desnecessária” do curso onde se debate sobre a existência de uma “fantasia humana”, ou seja, o bom e velho deus dos teístas.

Josh se recusa. O professor, irado, diz que o estudante terá, então, que defender a existência de Deus na aula. Combinam que os alunos irão julgar se o jovem foi bem sucedido em sua defesa. Se ele for, consegue passar na disciplina. Se não…

Essa é a premissa para um filme de apologia ao cristianismo que consegue ser tanto desonesto quanto de péssima qualidade. Meu desagrado com o filme se baseia em diversos pontos. Vamos a eles.

Em primeiro lugar, o maniqueísmo. O universo bizarro que eles criam na película se divide entre bons/católicos e maus/não-católicos. A começar pelo professor ateu, que é a encarnação do diabo. Um homem amargurado, egoísta, arrogante e odioso. Ele é o Grande Inquisidor, e não mede esforços para destroçar os sonhos do jovem Josh, meramente pelo fato de que ele crê em Deus Pai Todo Poderoso.

Mas não pára por aí. Temos um muçulmano que odeia Jesus e não aceita que a filha acredite nele, um pai que não está nem aí para Deus e é (claro) um pai ausente, uma cristã meia-boca que liga mais pras “coisas do mundo”. Tem de tudo, para todos os gostos. E, sem exceção, os que não professam com fervor o catolicismo são pintados com as piores cores e sentimentos. São pessoas violentas, egoístas, intolerantes e preconceituosas. Em suma, gente do mal.

Mas os católicos… Ah, os católicos! Esses são gente boa! Caridosos, gentis, ajudam as velhinhas a atravessar na rua, devolvem o troco errado na padaria… O protagonista é um ser humano excepcional, que, contra todos os obstáculos, prossegue em sua fé, espalhando bondade, racionalidade e oratória pelos quatro cantos do mundo. Temos, também, a figura emblemática de dois padres cujo principal objetivo, durante quase todo o filme, é ir pra Disney (sim, isso aí mesmo). Mas nunca dá certo, porque o carro quebra toda vez. Mas eles não desanimam e repetem sem parar que Deus é bom. (Tem uma função pra isso na história, bem pensada, devo admitir, mas o importante é: eles são um poço de bondade e paciência, ao contrário dos não-católicos malvados).

Qual o problema disso? É falso. É desonesto. O mundo não funciona desse jeito. Eu poderia até mencionar o fato óbvio de que, se pensarmos direito, deveria ser o contrário. Bons/não-cristãos versus maus/cristãos. Isso porque os adeptos dessa religião tendem a ser bastante agressivos com todo mundo que não siga sua escolha de vida. Mas não quero defender esse ponto. Porque o mundo também não funciona assim. Tem gente ruim e boa em todos os lados do tabuleiro metafísico. O filme perde muito do valor que poderia ter ao apostar numa construção de personagens tão desonesta e tosca.

Continuando: a contrução da trama é mal-feita. Por exemplo, Josh precisava estar sozinho contra o mundo, para seu gesto de fé ter ainda mais valor. Como isso é feito? Sua principal companhia, a namorada, termina o namoro por ele decidir enfrentar o professor. Desse jeito. “Tchau, Josh, seu idiota, não vou ficar com você porque você é burro de se recusar a escrever a porra de uma frase”. É inverossímil, porque ela é cristã. E mais, eles namoram há anos. Viva a força do amor, hein? Outros exemplos abundam, mas nem vou mencioná-los, caso o leitor deseje assistir o filme. Acho que o exemplo basta.

Isso tudo já é motivo suficiente para demonstrar minha tese: o filme é ruim porque simplesmente usa qualquer recurso, por mais tosco, para atingir seu objetivo, de exaltar o cristianismo. Talvez, no entanto, o filme teria salvação (ao contrário dos ateus malvados) caso a discussão sobre a existência de Deus fosse boa. Mas não é. Não tenho como discutir detalhadamente aqui os argumentos de cada lado. Mas cabe mencionar a estrutura do debate. Funciona mais ou menos assim:

Josh menciona tal argumento e… Professor despreza, zombando e falando que ele é burro e tem um cientista genial que discorda do argumento.

Josh menciona tal argumento e… Professor despreza, zombando e falando que ele é burro e tem um cientista genial que discorda do argumento.

Aí o Josh fica mais esperto e começa a usar uns recursos de oratória maneiros que não são filosóficos ou relevantes para o debate. E o negócio começa a ficar louco, com o professor cada vez mais irado e cheio de raiva, descontando na namorada, proferindo ameaças, o desequilíbrio aumentando a cada instante!!!

Aliás, o momento em que a dinâmica muda é quando o professor menciona o problema do mal, também conhecido na forma da clássica pergunta: “Se Deus é bom e onipotente, por que a gente se lasca tanto?”. Resposta do Josh: o mal do mundo é fruto do livre arbítrio humano, ou seja, não é culpa de Deus e não cabe imputar a ele essa responsabilidade. Essa é uma defesa milenar, e muito usada até hoje por gente respeitável. Mas eis o problema: nem todo mal é fruto do livre arbítrio. Por exemplo: como o câncer grave que crianças por vezes têm, e que as obrigam a anos de sofrimento e miséria, é culpa delas ou de alguém? Como a erupção de um vulcão, que dizima a população residente nos arredores por falta de opção, é culpa dessas pessoas? Os exemplos são infindáveis. É o que se chama de mal natural, ou seja, males independentes da ação humana.

Há respostas para isso. Eu discordo delas, mas isso não é relevante. O que é? Admito que a superficialidade da discussão é compreensível. Afinal, é um filme, não um tratado de filosofia. Mas o modo como a discussão se resolve, com o professor perdendo o controle e o aluno jogando frases de efeito… É patético, porque não é argumentado, apela para a emoção. É meramente um gancho narrativo tosco para convencer o espectador de que não, Deus não está morto. E isso termina por destruir qualquer possibilidade do filme ser minimamente bom. Uma pena: a questão de Deus na narrativa pode render ótimos frutos. Não rendeu, neste caso.

Repito: o filme é um panfleto, cuja única intenção é trazer o espectador para o lado cristão da Força. Aliás, é no mínimo sugestivo que o filme tenha saído no cinema e, quase simultaneamente, no Netflix, por onde assisti. Bilheteria não pareceu uma preocupação real e, até onde sei, não funciona assim a negociação com o Netflix. No mínimo, sugestivo. Só vem confirmar o que os recursos narrativos da película já demonstraram: o objetivo é converter pela emoção barata, custe o que custar.

É por tudo isso que “Deus não está morto” é, além de um péssimo filme, uma ofensa ao espectador. E um desrespeito a cristãos decentes que defendem sua fé com mais empenho e honestidade.

Aliás, preciso dizer: não acho que Deus esteja morto, como defendi em outro canto. Mas dizer isso é tão diferente de dizer que Deus existe! E, também, muito diferente de afirmar que isso é uma coisa boa.

Conversa, aliás, que fica para outra hora.

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