Ainda não dói o suficiente

Li, outro dia, a seguinte história no The art of asking, livro da Amanda Palmer:

 

Um fazendeiro está sentado numa cadeira em sua varanda, relaxando.

Um amigo caminha até a varanda para dizer oi, e escuta um ganido horrível, um som agudo vindo de dentro da casa.

“Que som assustador é esse?”, pergunta o amigo.

“É meu cachorro”, diz o fazendeiro. “Ele está sentado em um prego.”

“Por que ele só não sai de cima do prego?”, pergunta o amigo.

“Ainda não dói o suficiente.”

.

A beleza das histórias está nesse poder mágico que elas têm de nos acertar um soco na cara e escancarar verdades simples, mas facilmente ignoradas. É o principal motivo de gostarmos tanto delas.

Lendo a história, talvez você tenha a mesma sensação que eu. Ao fim da narrativa, uma pontada e o pensamento inequívoco: as pessoas precisam de tempo para querer parar de sofrer. E em seguida a conclusão inevitável e ainda assim dolorosa: eu não sou diferente de todo mundo.

Parece senso-comum que a gente não quer sofrer, mas isso é mentira. O sofrimento é condição determinante da condição humana e, por isso mesmo, nossa relação com ele não é tão fácil de determinar através de negativas tão simples. Porque na verdade, muitas vezes, nós queremos. Não de maneira explícita e masoquista, mas queremos. E você não pode negar.

Quantas pessoas você conhece que já estiveram num relacionamento fracassado, mas se recusavam a deixar o barco afundar? Quantas pessoas se mantiveram em relações familiares, profissionais, amorosas ou de amizade que eram abusivas, intoleráveis, mas, ainda assim, toleradas? E por mais tempo do que parecia humanamente possível. Ou, então, é aquela pessoa que continua persistindo na mesma atitude, que sempre leva aos mesmos problemas, sem tirar da desgraça repetida a lição simples de que é melhor mudar o plano de ação da próxima vez. Para não se machucar, para não machucar os outros. Mas a lição da história é clara. O motivo pelo qual tanta gente – eu, você, eles todos – faz isso e muito mais é simples.

Ainda não dói o suficiente.

No que me diz respeito, fico alegre de saber que, eventualmente, a hora chega. Felizmente tenho o costume de aprender, mesmo que demore. E tento ver que, se demora, é por limitação minha, e isso eu posso melhorar.

No meu livro, o protagonista se envolve em diversos problemas, que tornam sua vida um inferno. O elemento fantástico do romance é o deus cruel, que mexe os pauzinhos para brincar com o personagem, tudo por estar entediado. Mas tem algo bem interessante: nada aconteceria se não fossem as ações do personagem. O deus não força, só incentiva. Que nem todos nós, com nossos pregos existenciais e nossos donos fazendeiros, que deixam o prego ali, mas não nos forçam a sentar em cima dele. E nós, cães da vida, sentamos. Não só isso, mas deitamos, sangramos, fincamos o prego mais fundo, sempre dando uma desculpa: “Esse ano de crise é só uma fase ruim do nosso relacionamento de um ano”; “Não é meu emprego dos sonhos, mas eu ganho muito bem”; “Todo mundo têm problemas familiares”. O prego é besteira, melhor deixar quieto. E continuamos lá, até não dar mais, até dizermos chega – até doer o suficiente.

Às vezes o prego é importante demais para nós abdicarmos dele. E isso eu respeito, embora não entenda muito bem. Mas, na maioria das vezes, não é. Porque é sempre mais importante parar de doer.

Então ficou para mim a seguinte lição, que tentarei sempre repetir quando o prego incomodar: preste atenção, cão da vida. Preste atenção, e faça a dor ser suficiente logo. Até que o próximo prego venha, e você tenha a chance de mostrar se aprendeu ou não. E de novo, e de novo, e de novo. Do jeito que é. Do jeito que precisa ser.

Do jeito que nos faz humanos.

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***

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2 thoughts on “Ainda não dói o suficiente

  1. Bom Victor (meu chará kkk) pra mim o ser humano e como um porco espinho, um quer abraçar o outro, porém quando se tocam só se ferem mais.Não sei se entendeu meu ponto de vista mas mesmo assim gostei demais do texto.
    FLWWWW

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