Adeus, ano velho

     Não resisti à retrospectiva para o ano novo, embora um pouco tardia. Parece que a magia desta época é inescapável, então, por que se privar desse possível instrumento de renovação?

     Em muitos sentidos, 2014 foi um ano terrível para muita gente, inclusive para mim. Perdi um ente querido, tive problemas de relacionamento, chorei muito. Vi pessoas que sempre admirei se afogarem nos próprios dramas, e até agora não sinto a recuperação chegando. Assisti um país se dividir e se agredir sem descanso, movidos pela raiva e incompreensão que o ano eleitoral trouxe. Foi a falta de empatia beirando a insanidade. Foi triste. Perdemos, como disse o Gregório. Também assisti, mês após mês, notícias de gênios literários que deixaram esta vida. Gabriel García Marquez, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Braga. Não se enganem, faltou gente na lista. Uma geração de ícones das letras que agora não estão mais aqui para nos encantar com suas palavras. Como leitor e escritor, senti essas mortes. 2014 não foi um ano fácil.

     Por outro lado, foi o ano em que iniciei, de fato, minha carreira como autor. “Eu destruí aquela vida”, meu primeiro romance, foi publicado em meados de outubro, e tem me proporcionado ótimas experiências, pelo interesse dos leitores, que elogiam, criticam, e me mostram por que escrevo: para causar aos outros o que tantos livros já me causaram. O encanto, a emoção. A respiração presa pela ansiedade do que vem a seguir. O fim momentâneo da solidão que preenche a vida humana, através de um livro, de uma história e personagens que sofrem como eu, choram como eu, tão perdidos como eu. Por tudo isso, 2014 foi, também, um ano bom, de conquista e alegria.

     Acima de tudo, foi o primeiro ano em que tirei a conclusão óbvia, mas sempre ignorada: todo ano é cheio de alegria e desgraça e isso nunca vai mudar. No último dia de 2014, como em todos os anos anteriores, teve muita gente falando do alívio pelo fim daquele ciclo, da esperança de que o seguinte fosse melhor, menos cheio de desgosto, problema, obstáculos. Que esperança ingênua, pessoal. Os anos não melhoram nesse sentido. Claro que podemos medir o grau de dificuldade em cada período e construir um pódio de tristezas, se quisermos. Mas isso não muda o fato de que todo ano é cheio de alegrias e dissabores, desgraças e bênçãos, perdas e ganhos. E que, se não mudarmos nossa tendência de sempre enfatizar os problemas em tudo, os anos continuarão terminando com gritos de cansaço e socorro, anseios por uma nova fase, onde tudo será bonito e ameno, livre de qualquer empecilho à felicidade. Esperança vã, que não vale a pena cultivar. Melhor encarar essa dualidade existencial do ano novo e abraçá-la, pois assim abraçamos a vida. E, se nem isso fazemos, por que diabos continuar?

     Continuemos. Sem ingenuidade, mas sem pessimismo. Que o próximo ano seja melhor, embora não vá ser perfeito. Que seja repleto de metas e desistências, fracassos e conquistas, como toda vida humana. E que, em algum ponto do ano, você tenha a capacidade de olhar a própria vida e rir dessa bagunça de dores e amores que chamamos de existir. Só assim um passo significativo será dado em direção a um ano novo ou, melhor ainda: a uma nova vida. Como todos desejamos. Como é da nossa natureza perseguir. Como, tenho certeza, podemos alcançar.

     Feliz 2015 a todos e todas. Segue o baile.

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