Não vai ficar tudo bem

Quando eu era mais novo, minha mãe sempre me dizia, nos momentos de tristeza: vai ficar tudo bem. Um dia as coisas se acertam. Essa briga com a namorada vai passar. Se não, outra menina vai surgir e você nem se lembrará dessa dor de cotovelo. Se as coisas não vêm dando certo na escola, é temporário. Você vai sair dessa. Tudo passa, tudo passará. Vai ficar tudo bem.

Hoje, não acredito mais nisso. É a lição mais valiosa – e dolorosa – que tirei da vida: independente do que acontecer, a vida não vai melhorar. A dor de cotovelo é substituída por outra logo em seguida. Ou alguém da família adoece. Não aconteceu? O emprego recém-adquirido é uma merda e você não está fazendo o que quer. A carreira está de vento em popa? Mas você viaja tanto, mal tem tempo para os amigos! E esse vazio na alma insiste em te deixar melancólico, não tem jeito.

Deus do céu, onde isso vai parar?

A verdade é que não pára. Nunca. Embora tenhamos tanta dificuldade em admitir. Fico impressionado como todo fim de ano as pessoas reclamam dos meses anteriores e dão graças aos céus por ter que comprar um novo calendário.

“Que ano horrível, ainda bem que acabou”.

Mal percebem que a mesma frase é repetida a cada dezembro, sem exceção, desde que elas conheceram as amarguras da própria vida.

Quando um ano acaba, não espero que o seguinte seja melhor. Já perdi essa inocência. Penso: vai ser igual ou pior, mas vou estar com mais gana de ir atrás do que desejo. Mesmo que não signifique nada. Mesmo que eu não consiga.

Porque é isso que vale, no fim das contas. O ano não vai ser melhor, você não vai chegar à idade paradisíaca em que tudo é como você sempre sonhou. Não vai ficar tudo bem. Ainda assim, você pode ir em frente, cada vez mais forte, e pronto para levar cada vez mais porrada. No meio do caminho tem algumas alegrias esperando. Eu garanto. A vida humana é uma sucessão de dores intercaladas por felicidades fáceis de esquecer.

Pode parecer que essas são idéias de um pessimista sem vontade de viver, mas não. Adoro essa coisa toda. Temos décadas disso pela frente, depois morreremos. Então, por que ficar se revoltando? É o que tem para hoje. Melhor estar consciente da situação do que ficar à espera das condições perfeitas que nos deixariam num estado de iluminação e plenitude máximas. Esperança é bom, mas essa é uma esperança ilusória. Não vai ficar tudo bem.

Entende? Não vai.

Saber disso pode ser nossa única salvação.

Eu Destruí Aquela Vida – Victor Gomes

Saiu uma resenha sobre EU DESTRUÍ AQUELA VIDA, meu romance de estreia. Confiram!

Aquela Leitura

Esse não foi um livro que eu encontrei, acho que fui encontrado por ele. O Jovem autor, Victor Gomes, é um amigo meu e este é seu primeiro romance, lançado ano passado pela Editora Zap Book. Adquiri meu exemplar no evento de lançamento que aconteceu em novembro, sei que tou meio atrasado em postar isso, mas finalmente resolvi quietar e escrever um pouco sobre o livro.

Roberto Linhares, um professor da Universidade de Brasília especializado em ética, mantém um caso fora de seu casamento, com uma aluna. É essa atitude tão contraditória que desperta a atenção de um caótico e entediado deus que resolve brincar com a vida de Roberto e por suas crenças à prova. É num acidente de carro que acontece num momento de extrema delicadeza que a vida e a mente do protagonista são tiradas do lugar, especialmente após a aparição de Marcelo, um mendigo enviado até Roberto…

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Adeus, ano velho

     Não resisti à retrospectiva para o ano novo, embora um pouco tardia. Parece que a magia desta época é inescapável, então, por que se privar desse possível instrumento de renovação?

     Em muitos sentidos, 2014 foi um ano terrível para muita gente, inclusive para mim. Perdi um ente querido, tive problemas de relacionamento, chorei muito. Vi pessoas que sempre admirei se afogarem nos próprios dramas, e até agora não sinto a recuperação chegando. Assisti um país se dividir e se agredir sem descanso, movidos pela raiva e incompreensão que o ano eleitoral trouxe. Foi a falta de empatia beirando a insanidade. Foi triste. Perdemos, como disse o Gregório. Também assisti, mês após mês, notícias de gênios literários que deixaram esta vida. Gabriel García Marquez, Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Braga. Não se enganem, faltou gente na lista. Uma geração de ícones das letras que agora não estão mais aqui para nos encantar com suas palavras. Como leitor e escritor, senti essas mortes. 2014 não foi um ano fácil.

     Por outro lado, foi o ano em que iniciei, de fato, minha carreira como autor. “Eu destruí aquela vida”, meu primeiro romance, foi publicado em meados de outubro, e tem me proporcionado ótimas experiências, pelo interesse dos leitores, que elogiam, criticam, e me mostram por que escrevo: para causar aos outros o que tantos livros já me causaram. O encanto, a emoção. A respiração presa pela ansiedade do que vem a seguir. O fim momentâneo da solidão que preenche a vida humana, através de um livro, de uma história e personagens que sofrem como eu, choram como eu, tão perdidos como eu. Por tudo isso, 2014 foi, também, um ano bom, de conquista e alegria.

     Acima de tudo, foi o primeiro ano em que tirei a conclusão óbvia, mas sempre ignorada: todo ano é cheio de alegria e desgraça e isso nunca vai mudar. No último dia de 2014, como em todos os anos anteriores, teve muita gente falando do alívio pelo fim daquele ciclo, da esperança de que o seguinte fosse melhor, menos cheio de desgosto, problema, obstáculos. Que esperança ingênua, pessoal. Os anos não melhoram nesse sentido. Claro que podemos medir o grau de dificuldade em cada período e construir um pódio de tristezas, se quisermos. Mas isso não muda o fato de que todo ano é cheio de alegrias e dissabores, desgraças e bênçãos, perdas e ganhos. E que, se não mudarmos nossa tendência de sempre enfatizar os problemas em tudo, os anos continuarão terminando com gritos de cansaço e socorro, anseios por uma nova fase, onde tudo será bonito e ameno, livre de qualquer empecilho à felicidade. Esperança vã, que não vale a pena cultivar. Melhor encarar essa dualidade existencial do ano novo e abraçá-la, pois assim abraçamos a vida. E, se nem isso fazemos, por que diabos continuar?

     Continuemos. Sem ingenuidade, mas sem pessimismo. Que o próximo ano seja melhor, embora não vá ser perfeito. Que seja repleto de metas e desistências, fracassos e conquistas, como toda vida humana. E que, em algum ponto do ano, você tenha a capacidade de olhar a própria vida e rir dessa bagunça de dores e amores que chamamos de existir. Só assim um passo significativo será dado em direção a um ano novo ou, melhor ainda: a uma nova vida. Como todos desejamos. Como é da nossa natureza perseguir. Como, tenho certeza, podemos alcançar.

     Feliz 2015 a todos e todas. Segue o baile.

Ainda não dói o suficiente

Li, outro dia, a seguinte história no The art of asking, livro da Amanda Palmer:

 

Um fazendeiro está sentado numa cadeira em sua varanda, relaxando.

Um amigo caminha até a varanda para dizer oi, e escuta um ganido horrível, um som agudo vindo de dentro da casa.

“Que som assustador é esse?”, pergunta o amigo.

“É meu cachorro”, diz o fazendeiro. “Ele está sentado em um prego.”

“Por que ele só não sai de cima do prego?”, pergunta o amigo.

“Ainda não dói o suficiente.”

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A beleza das histórias está nesse poder mágico que elas têm de nos acertar um soco na cara e escancarar verdades simples, mas facilmente ignoradas. É o principal motivo de gostarmos tanto delas.

Lendo a história, talvez você tenha a mesma sensação que eu. Ao fim da narrativa, uma pontada e o pensamento inequívoco: as pessoas precisam de tempo para querer parar de sofrer. E em seguida a conclusão inevitável e ainda assim dolorosa: eu não sou diferente de todo mundo.

Parece senso-comum que a gente não quer sofrer, mas isso é mentira. O sofrimento é condição determinante da condição humana e, por isso mesmo, nossa relação com ele não é tão fácil de determinar através de negativas tão simples. Porque na verdade, muitas vezes, nós queremos. Não de maneira explícita e masoquista, mas queremos. E você não pode negar.

Quantas pessoas você conhece que já estiveram num relacionamento fracassado, mas se recusavam a deixar o barco afundar? Quantas pessoas se mantiveram em relações familiares, profissionais, amorosas ou de amizade que eram abusivas, intoleráveis, mas, ainda assim, toleradas? E por mais tempo do que parecia humanamente possível. Ou, então, é aquela pessoa que continua persistindo na mesma atitude, que sempre leva aos mesmos problemas, sem tirar da desgraça repetida a lição simples de que é melhor mudar o plano de ação da próxima vez. Para não se machucar, para não machucar os outros. Mas a lição da história é clara. O motivo pelo qual tanta gente – eu, você, eles todos – faz isso e muito mais é simples.

Ainda não dói o suficiente.

No que me diz respeito, fico alegre de saber que, eventualmente, a hora chega. Felizmente tenho o costume de aprender, mesmo que demore. E tento ver que, se demora, é por limitação minha, e isso eu posso melhorar.

No meu livro, o protagonista se envolve em diversos problemas, que tornam sua vida um inferno. O elemento fantástico do romance é o deus cruel, que mexe os pauzinhos para brincar com o personagem, tudo por estar entediado. Mas tem algo bem interessante: nada aconteceria se não fossem as ações do personagem. O deus não força, só incentiva. Que nem todos nós, com nossos pregos existenciais e nossos donos fazendeiros, que deixam o prego ali, mas não nos forçam a sentar em cima dele. E nós, cães da vida, sentamos. Não só isso, mas deitamos, sangramos, fincamos o prego mais fundo, sempre dando uma desculpa: “Esse ano de crise é só uma fase ruim do nosso relacionamento de um ano”; “Não é meu emprego dos sonhos, mas eu ganho muito bem”; “Todo mundo têm problemas familiares”. O prego é besteira, melhor deixar quieto. E continuamos lá, até não dar mais, até dizermos chega – até doer o suficiente.

Às vezes o prego é importante demais para nós abdicarmos dele. E isso eu respeito, embora não entenda muito bem. Mas, na maioria das vezes, não é. Porque é sempre mais importante parar de doer.

Então ficou para mim a seguinte lição, que tentarei sempre repetir quando o prego incomodar: preste atenção, cão da vida. Preste atenção, e faça a dor ser suficiente logo. Até que o próximo prego venha, e você tenha a chance de mostrar se aprendeu ou não. E de novo, e de novo, e de novo. Do jeito que é. Do jeito que precisa ser.

Do jeito que nos faz humanos.

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Um país governado por profissionais

(crônica publicada originalmente no Crônicas de um ano inteiro)

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Aécio Neves declarou que o povo não agüentaria mais quatro anos de um governo que perdeu a capacidade de admitir seus erros. Dilma leva na cara. Acrescentou em seguida: o país “não é para amadores”. Dona Marina e, bom, todos os outros candidatos receberam a mensagem.

Sabe, ele está totalmente certo. Ninguém agüentaria mais quatro anos do governo que está aí, porque é inegável: a péssima administração da presidenta nos jogou em uma situação na qual é difícil acreditar em alguma saída para a crise que se anuncia para o próximo ano.

Além disso, o país realmente não é para amadores. Não mesmo. É para profissionais do ilusionismo, que de algum modo convencem milhões de pessoas do seu desejo e capacidade de mudar as coisas.

Olho para as discussões na internet e nas rodas de conversa por aí me perguntando: gente, só eu não acredito em ninguém? Só eu não me contento em votar no “menos pior”? Só eu não acredito que haja, de fato, um bom candidato? A eleição é uma farsa. Os frutos dela não passarão de mudanças na estética das propagandas do governo, no nome dos programas sociais e em algumas atitudes aqui e ali. Na essência? Vai continuar a mesma merda.

Nosso sistema político é viciado. Não é o bordão moderno ou antiquado de algum candidato que vai mudar isso. Não é a morte do Eduardo Campos, ou a fuga da DITADURA COMUNISTA PETRALHA. Porque o Estado brasileiro, na sua estrutura e na cultura que se estabeleceu para os que dele tiram poder, é corrupto e se auto-mantém. Não importa quem entre: o próximo ou a próxima chefe do Executivo será obrigado(a) a manter a estrutura política de modo a ter o mínimo poder de ação. Alianças entre partidos, projetos de lei barrados e aprovados por motivos indiferentes ao bem coletivo, casos de Justiça abafados ou expostos, tudo faz parte. E cito apenas o mais óbvio. A estrutura é assim. Ela se manterá, assim como os velhos problemas do Brasil.

Não importa o que estejam prometendo, ou as bandeiras que os presidenciáveis levantem: se eleitos, todos eles serão profissionais em não cumpri-las.

Perdão, mas não acho que ninguém vá fazer a diferença nas urnas.

Deixo aqui meu voto de confiança: nosso voto não vai mudar nada.

Honestidade é a virtude dos condenados

 Lá pelos meus treze anos, decidi que viveria sob uma bandeira muito específica: não disfarçar quem sou e o que faço, nem para mim, nem para ninguém mais. A decisão veio após muita reflexão, mas sem teorizar nada. Depois, na universidade, encontrei essa filosofia sistematizada no existencialismo. Heidegger chamava isso de buscar a autenticidade na existência, embora o conceito filosófico envolva outros aspectos além do que mencionei.
Autenticidade da existência. Agir sempre de acordo com seu projeto existencial. Agir sempre de acordo com o que se quer ser (embora a gente, é claro, não seja nada, como bem disse o Álvaro de Campos na Tabacaria). Fugir da impessoalidade, esse monstro que atinge a todos e nos faz iguais. Vamos às mesmas festas, lemos os mesmos livros, queremos as mesmas coisas. Nas palavras geniais e precisas de Heidegger, até fugimos da multidão do mesmo modo. Eu não queria isso e, mais ainda, não queria mentir sobre quem eu era. Nem para mim, nem para os outros.
Por um lado, é maravilhoso o efeito que isso teve nos resultados da minha vida. A honestidade quanto aos meus defeitos e inaptidões permitiu que eu me dedicasse apenas ao que era passível de realização. Em outras palavras, nunca tentei fazer algo no qual eu não fosse bom. Pode parecer idiotice ou covardia, mas não – é estratégia. E tem dado certo. À parte fracassos eventuais, inevitáveis em qualquer existência, consegui muitos dos meus objetivos num prazo curto de tempo. Mantenho a atitude. Vale a pena. Ou seja, honestidade pode ser uma boa.
Mas também pode ser um inferno. A honestidade é a virtude dos condenados. Por um motivo muito simples: ninguém quer a verdade. E mostrar a si mesmo sem disfarces é considerado ofensa à etiqueta social, além de, claro, pecado moralmente imperdoável.
Experimenta, um dia, não fingir que você é livre de falhas. O mundo cai em cima, porque, bom, se até você admite que faz merda, quem sou eu pra não apontar o dedo na sua cara a cada deslize? O efeito é dos mais peculiares que já vi no comportamento humano: o ato de não ocultar uma falha faz com que a falha pareça mais inaceitável. Se, por exemplo, eu sacaneio um amigo, seja lá como for, e digo, “verdade, fui um filho da puta, pior que já agi desse jeito antes, é algo que tenho dificuldade em mudar”, acabou, amigo, chove gente para realçar a vileza do seu ato. Agora, se na mesma situação eu digo algo do tipo “que nada, ele entendeu errado, nem é tão ruim, e ele já fez algo parecido!”, fica tudo bem. Claro, ele errou, mas nem tanto. O outro já fez parecido. Ele se justificou. O universo da hipocrisia humana está em harmonia novamente.
Não é questão de afirmar categoricamente que aqueles dispostos a admitir as próprias falhas – de caráter ou eventuais – são os únicos criticados. Mas, se o leitor aí já teve a experiência de ser bem honesto quanto ao erro que cometeu, há de convir que o mundo não é lá muito tolerante com isso, embora pregue o contrário. A sacada magnífica de Álvaro de Campos no “Poema em Linha Reta” traduz bem o que tenho dito até aqui, com a genialidade que só Fernando Pessoa tinha:.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

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   E mais:

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Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida….

   Honestidade é a virtude dos condenados. E é, sim, honestidade admitir que se faz merda e, às vezes, que não se quer ser livre de falhas (porque, convenhamos, isso é muito chato). É admitir o fato indubitável e facilmente verificável de que todo ser humano, sem exceção, é ferrado e cheio de merda para lidar. E que ninguém, por mais que mascare sua condição com um sorriso de felicidade ou uma cara de bom moço, vai conseguir mudar esse fato incômodo e inegável. Somos cheios de merda para lidar. Isso gera mais problema. Gera erro, gera lágrima. Mas mentir a respeito não muda nada. E condenar o outro por não mentir, menos ainda.
Mas tudo bem. Levando o que já disse em conta, finalizo dizendo que não me entristece a atitude que encontro muitas vezes. Ela me irrita. Mais uma vez, Álvaro de Campos:

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Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

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   Já duvidei, mas agora posso garantir: não sou só eu. Somos todos nós. E não tem para onde fugir. Talvez, a solução esteja nesta imagem:

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   É um desenho que ganhei da Patrícia Oliveira, que também colabora aqui no Literatortura. Achei genial. Resume bem o modo como encaro a vida.
Então, é isso que digo a todo mundo que conversa comigo a respeito de algum problema: Aceita as tuas merdas. Não foge de quem você é, mesmo que você não seja um poço de bondade e amor cristão. Aliás, quem quer ser isso? Aceita seus defeitos, muda o que quiser e puder mudar. Mas, acima tudo, aceita, abraça essa sua bagunça individual que a gente chama de existência humana.
Embrace your own mess.