Heráclito e Camões: permanência e mudança

À primeira vista, pode parecer que nada têm em comum esses dois nomes. Um pertence ao início da filosofia, marcada pelo engatinhar na investigação da natureza; outro representa um dos maiores nomes da poesia de língua portuguesa. Qual distância maior poderia haver entre os dois? Ainda assim, uma analogia é possível. E se a filosofia – como tendo a acreditar – é complementada pela literatura, e vice-versa, a comparação que irei propor, se bem elaborada, pode lançar luz sobre ambos os autores e suas obras.

Comecemos com Heráclito, por mera questão cronológica. O pensador de Éfeso é um dos chamados pré-socráticos, considerados os primeiros filósofos do pensamento ocidental. Antes de mais nada, cabe notar a extrema dificuldade de falar dos pré-socráticos. De seus escritos – que, já de início, não são muitos – pouco sobreviveu até os nossos dias. Acrescente-se, a isso, a dificuldade de tradução fiel dos fragmentos que encontramos, e temos uma barreira à reflexão sobre eles que não é facilmente transponível. Por isso, aviso logo que não pretendo enunciar verdades sobre o seu pensamento, mas apenas uma interpretação particular, apoiada, de maneira geral, numa reflexão sobre os fragmentos do autor e a crítica feita a ele por Hegel, em sua obra, “Preleções sobre a história da filosofia”.

Heráclito era conhecido como “O obscuro”, por seu estilo aforístico altamente enigmático e conciso. Suas máximas são muito curtas, o que configura mais uma dificuldade para interpretá-lo. É ele o autor da famosa máxima, que tanta importância tem na história da investigação filosófica e, mais tarde, científica: “a natureza ama ocultar-se”. É ele também o grande nome, dentre os pré-socráticos, a tratar do aspecto fundamental que a mudança desempenha no mundo.

Se eu pudesse resumir a doutrina de Heráclito sobre a mudança em uma de suas máximas, escolheria a seguinte, que é, aliás, bem popular: “Tu não podes descer duas vezes sobre um mesmo rio, porque novas águas correm sempre sobre ti”. É essa, basicamente, a tese de Heráclito: tudo flui, nada permanece o mesmo. O que parece bastante certo, apesar de procurarmos sempre certa constância nas coisas. O avanço do conhecimento atual nos permitiu saber que, mesmo quando algo parece completamente imóvel, na verdade, as partes que compõem esse algo estão em movimento. Como, em geral, encaramos o movimento como mudança, parece que Heráclito acertou ao dizer que tudo é mudança, e que tudo está sempre a fluir, como as águas de um rio.

Mas a posição de Heráclito é ainda mais profunda. Segundo ele, o “ser não é mais que o não-ser”. Seguindo a interpretação de Hegel, penso que é esta a ideia: nada realmente é, além do devir. Pois somente é o que permanece, e nada permanece. Assim sendo, o que é, no momento que é, já deixou de ser, e passou a ser algo diferente. Assim, o ser, enquanto ser, é, também, o não-ser. Os dois opostos são idênticos.

Eis um raciocínio muito abstrato, mas extremamente interessante e profundo. Para Hegel, esse é o princípio universal que Heráclito enunciou, e ele significa que são idênticos o ser e o não-ser, pois eles são apenas uma coisa, o devir. O ser é o não-ser, torna-se não ser no exato momento que é ser. O devir do não-ser, e do ser, e do não-ser, e assim por diante.

Tudo é Um, dizia Heráclito, pois são os opostos que, harmonizados entre si, formam uma unidade. Cabe aqui uma analogia com a música. Não há harmonia musical se temos apenas sons agudos, ou apenas sons graves. A combinação dos dois de maneira adequada forma a harmonia, é com essa combinação que surge a unidade musical. Dessa combinação de opostos, diz Heráclito, surge a unidade de tudo. Dos opostos que geram a mudança. É tão notória a impermanência de tudo que discípulos de Heráclito afirmaram que não se pode nem mesmo entrar no rio, pois, no exato instante em que se entra nele, e ele é ser, já se tornou não-ser.

Mas essa Unidade, advinda dos opostos, da mudança constante, gera uma permanência, que é o próprio fato da mudança. Ou seja: nada é permanente, exceto a mudança. A mudança, sim, é permanente, ela está sempre acontecendo, e não deixa nunca de se dar, e de modo uniforme, cíclico. Heráclito identifica esse princípio da mudança, dizendo que o universo vem a ser e a não ser através do fogo, elemento que melhor expõe o caráter transitório das coisas. Assim, “Nem um deus nem um homem fabricou o universo mas sempre foi e é e será um fogo sempre vivo, que segundo suas próprias leis, se acende e se apaga”. Nesse ponto, deixemos Heráclito de lado por um momento, com a seguinte pergunta: será que a mudança é, de fato, permanente? Ou será que também ocorre a “mudança da mudança”?

Passemos a Camões. Genial poeta português, autor dos Lusíadas e de incontáveis obras magníficas. Entre essas obras, destacam-se, além da epopeia citada, alguns sonetos de enorme qualidade, como aquele muito famoso, sobre o amor (“O amor é fogo que arde sem se ver…”), ou, no caso que analisaremos aqui, um soneto intitulado “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

 O soneto trata da lembrança de forma poética, é claro, ou seja, sem pretensão explicitamente filosófica. Mas ele oferece uma fonte de reflexão interessante, pois a mudança é vista sob um prisma diferente do de Heráclito. Enquanto o filósofo se concentra na mudança física da natureza, Camões trata da mudança psicológica dentro do tempo. Ou seja, que a natureza muda, que há mudança externa ao homem, Camões sem dúvida admite; mas vai além, e fala da mudança interna do ser humano, que é tão presente quanto àquela da natureza.

O soneto afirma: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, e todo o mundo é composto de mudança. A mesma tese de Heráclito, como se pode ver, é afirmada. A mudança, a novidade, é contínua. O soneto tem uma abordagem bem mais sentimental e dramática, falando sobre a mudança do bem em mal, do “doce canto” em choro. Parece, no entanto, haver uma continuidade nas coisas, que é a continuidade do mal, que fica como “mágoa na lembrança”. Mas é claro que se pode dizer que não é o mesmo mal que ali está, mas um mal diferenciado, transformado pelo tempo. Nem a beleza do poema, nem seu, digamos “rigor filosófico”, é prejudicado por isso.

O ponto que permite questionar a tese de Heráclito vem na última estrofe: “E, afora este mudar-se cada dia/Outra mudança faz de mor espanto/Que não se muda já como soía”. Essa última palavra é conjugação do verbo “soer”, sinônimo de “costumar”. Ou seja, a mudança já não se dá como de costume. A mudança já não ocorre do mesmo modo. A mudança mudou.

Penso que Camões tocou num ponto muito importante, que é o caráter transitório da própria mudança. Há mudança sempre? Penso que sim. Mas há mudança sempre do mesmo modo? Não. A ideia de Heráclito, de que a mudança é sempre a mesma, ocorrendo de forma cíclica, é difícil de ser sustentada. Há uma dose de incerteza bastante grande no mundo, e penso ser difícil afirmar que a mudança se dá de forma uniforme, sempre. A noção moderna é de que a natureza não é uniforme; ela muda até mesmo no seu jeito de mudar! Reforça-se a tese primária de Heráclito, mas permite que olhemos com alguma desconfiança para o aprofundamento dessa tese. A mudança externa não é uniforme – sabe-se, hoje em dia, que as chamadas “leis do universo”, ou “leis da natureza”, não são necessárias ou infalíveis; elas não se aplicam, em certos momentos, ou se aplicam de modo diverso em alguns outros; nem o é a mudança interna – não é preciso aprofundar, aqui, a inconstância tremenda da mudança interna do ser humano, muitas vezes disforme e caótica. Eis um ponto em que Camões ensina Heráclito, um ponto em que o encontro da filosofia com a literatura resulta em algo extremamente frutífero para ambos os lados. E, assim, Éfeso e Lisboa nos permitem pensar melhor um aspecto fundamental do universo e de nós mesmos.

Um país governado por profissionais

(crônica publicada originalmente no Crônicas de um ano inteiro)

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Aécio Neves declarou que o povo não agüentaria mais quatro anos de um governo que perdeu a capacidade de admitir seus erros. Dilma leva na cara. Acrescentou em seguida: o país “não é para amadores”. Dona Marina e, bom, todos os outros candidatos receberam a mensagem.

Sabe, ele está totalmente certo. Ninguém agüentaria mais quatro anos do governo que está aí, porque é inegável: a péssima administração da presidenta nos jogou em uma situação na qual é difícil acreditar em alguma saída para a crise que se anuncia para o próximo ano.

Além disso, o país realmente não é para amadores. Não mesmo. É para profissionais do ilusionismo, que de algum modo convencem milhões de pessoas do seu desejo e capacidade de mudar as coisas.

Olho para as discussões na internet e nas rodas de conversa por aí me perguntando: gente, só eu não acredito em ninguém? Só eu não me contento em votar no “menos pior”? Só eu não acredito que haja, de fato, um bom candidato? A eleição é uma farsa. Os frutos dela não passarão de mudanças na estética das propagandas do governo, no nome dos programas sociais e em algumas atitudes aqui e ali. Na essência? Vai continuar a mesma merda.

Nosso sistema político é viciado. Não é o bordão moderno ou antiquado de algum candidato que vai mudar isso. Não é a morte do Eduardo Campos, ou a fuga da DITADURA COMUNISTA PETRALHA. Porque o Estado brasileiro, na sua estrutura e na cultura que se estabeleceu para os que dele tiram poder, é corrupto e se auto-mantém. Não importa quem entre: o próximo ou a próxima chefe do Executivo será obrigado(a) a manter a estrutura política de modo a ter o mínimo poder de ação. Alianças entre partidos, projetos de lei barrados e aprovados por motivos indiferentes ao bem coletivo, casos de Justiça abafados ou expostos, tudo faz parte. E cito apenas o mais óbvio. A estrutura é assim. Ela se manterá, assim como os velhos problemas do Brasil.

Não importa o que estejam prometendo, ou as bandeiras que os presidenciáveis levantem: se eleitos, todos eles serão profissionais em não cumpri-las.

Perdão, mas não acho que ninguém vá fazer a diferença nas urnas.

Deixo aqui meu voto de confiança: nosso voto não vai mudar nada.

Honestidade é a virtude dos condenados

 Lá pelos meus treze anos, decidi que viveria sob uma bandeira muito específica: não disfarçar quem sou e o que faço, nem para mim, nem para ninguém mais. A decisão veio após muita reflexão, mas sem teorizar nada. Depois, na universidade, encontrei essa filosofia sistematizada no existencialismo. Heidegger chamava isso de buscar a autenticidade na existência, embora o conceito filosófico envolva outros aspectos além do que mencionei.
Autenticidade da existência. Agir sempre de acordo com seu projeto existencial. Agir sempre de acordo com o que se quer ser (embora a gente, é claro, não seja nada, como bem disse o Álvaro de Campos na Tabacaria). Fugir da impessoalidade, esse monstro que atinge a todos e nos faz iguais. Vamos às mesmas festas, lemos os mesmos livros, queremos as mesmas coisas. Nas palavras geniais e precisas de Heidegger, até fugimos da multidão do mesmo modo. Eu não queria isso e, mais ainda, não queria mentir sobre quem eu era. Nem para mim, nem para os outros.
Por um lado, é maravilhoso o efeito que isso teve nos resultados da minha vida. A honestidade quanto aos meus defeitos e inaptidões permitiu que eu me dedicasse apenas ao que era passível de realização. Em outras palavras, nunca tentei fazer algo no qual eu não fosse bom. Pode parecer idiotice ou covardia, mas não – é estratégia. E tem dado certo. À parte fracassos eventuais, inevitáveis em qualquer existência, consegui muitos dos meus objetivos num prazo curto de tempo. Mantenho a atitude. Vale a pena. Ou seja, honestidade pode ser uma boa.
Mas também pode ser um inferno. A honestidade é a virtude dos condenados. Por um motivo muito simples: ninguém quer a verdade. E mostrar a si mesmo sem disfarces é considerado ofensa à etiqueta social, além de, claro, pecado moralmente imperdoável.
Experimenta, um dia, não fingir que você é livre de falhas. O mundo cai em cima, porque, bom, se até você admite que faz merda, quem sou eu pra não apontar o dedo na sua cara a cada deslize? O efeito é dos mais peculiares que já vi no comportamento humano: o ato de não ocultar uma falha faz com que a falha pareça mais inaceitável. Se, por exemplo, eu sacaneio um amigo, seja lá como for, e digo, “verdade, fui um filho da puta, pior que já agi desse jeito antes, é algo que tenho dificuldade em mudar”, acabou, amigo, chove gente para realçar a vileza do seu ato. Agora, se na mesma situação eu digo algo do tipo “que nada, ele entendeu errado, nem é tão ruim, e ele já fez algo parecido!”, fica tudo bem. Claro, ele errou, mas nem tanto. O outro já fez parecido. Ele se justificou. O universo da hipocrisia humana está em harmonia novamente.
Não é questão de afirmar categoricamente que aqueles dispostos a admitir as próprias falhas – de caráter ou eventuais – são os únicos criticados. Mas, se o leitor aí já teve a experiência de ser bem honesto quanto ao erro que cometeu, há de convir que o mundo não é lá muito tolerante com isso, embora pregue o contrário. A sacada magnífica de Álvaro de Campos no “Poema em Linha Reta” traduz bem o que tenho dito até aqui, com a genialidade que só Fernando Pessoa tinha:.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo

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   E mais:

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Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida….

   Honestidade é a virtude dos condenados. E é, sim, honestidade admitir que se faz merda e, às vezes, que não se quer ser livre de falhas (porque, convenhamos, isso é muito chato). É admitir o fato indubitável e facilmente verificável de que todo ser humano, sem exceção, é ferrado e cheio de merda para lidar. E que ninguém, por mais que mascare sua condição com um sorriso de felicidade ou uma cara de bom moço, vai conseguir mudar esse fato incômodo e inegável. Somos cheios de merda para lidar. Isso gera mais problema. Gera erro, gera lágrima. Mas mentir a respeito não muda nada. E condenar o outro por não mentir, menos ainda.
Mas tudo bem. Levando o que já disse em conta, finalizo dizendo que não me entristece a atitude que encontro muitas vezes. Ela me irrita. Mais uma vez, Álvaro de Campos:

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Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

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   Já duvidei, mas agora posso garantir: não sou só eu. Somos todos nós. E não tem para onde fugir. Talvez, a solução esteja nesta imagem:

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   É um desenho que ganhei da Patrícia Oliveira, que também colabora aqui no Literatortura. Achei genial. Resume bem o modo como encaro a vida.
Então, é isso que digo a todo mundo que conversa comigo a respeito de algum problema: Aceita as tuas merdas. Não foge de quem você é, mesmo que você não seja um poço de bondade e amor cristão. Aliás, quem quer ser isso? Aceita seus defeitos, muda o que quiser e puder mudar. Mas, acima tudo, aceita, abraça essa sua bagunça individual que a gente chama de existência humana.
Embrace your own mess.

Dostoiévski e Nietzsche: entre o Super-Homem e o homem extraordinário

Fiódor Dostoiévski é considerado o escritor filósofo por excelência. Suas obras são um manancial de reflexão filosófica sobre diversos temas. Entre seus escritos, vários deles consagrados como clássicos da literatura universal, destaca-se aquele romance que é, para mim, seu maior trabalho: Crime e Castigo.

Crime e Castigo narra a história de um jovem estudante de Direito, Raskolnikov, que passa por severas dificuldades financeiras e comete um assassinato para supri-las. A investigação do assassinato e a reação de Raskolnikov ao próprio ato conduzem o enredo. Entretanto, o ponto mais interessante da obra é o que leva o jovem a cometer o crime. Raskolnikov havia publicado, algum tempo antes do assassinato, um artigo, em que expunha sua “teoria do homem extraordinário”. É essa teoria que pretendo analisar aqui.

Para Raskolnikov, o homem extraordinário é aquele que, tendo em si a capacidade de produzir obras de imenso valor para a humanidade, tem o direito de burlar as leis morais. Ou mais profundo ainda, de simplesmente ignorá-las, para conseguir realizar o que pretende. O homem extraordinário não se submete às leis que governam os outros homens, pois está acima delas. O exemplo repetidamente lembrado por Raskolnikov ao longo do romance é Napoleão, que não hesitou nem um momento em cometer todos os crimes que cometeu para chegar ao poder e governar. Essa ausência de remorso, esse sentimento de poder ser imoral e, ao mesmo tempo, de que não se é imoral, pois se está acima da moralidade, é o que caracteriza o homem extraordinário.

Raskolnikov pensou ser um homem extraordinário. Refletindo sobre sua mãe e irmã – esta última que iria se casar apenas para, com a proteção do marido rico, ajudar a mãe a viver e o irmão a concluir seus estudos – Raskolnikov pensou que não poderia esperar seus estudos terminarem, levar uma vida medíocre de professor enquanto ganhava alguns trocados. Precisava de dinheiro imediatamente, para poder realizar suas grandes obras. Por esse motivo, Raskolnikov planeja e executa o assassinato de uma agiota. No entanto, ele acaba matando, também, por acidente, a irmã da agiota, uma moça inocente e gentil. Raskolnikov, então, entra num circulo de insanidade e culpa crescente, enquanto tenta esconder tal sentimento de quem investiga o crime.

Não quero contar nada mais sobre a história, para não impedir que os leitores que não conhecem a obra queiram lê-la. No entanto, um ponto importantíssimo merece menção: Raskolnikov se culpa pelo assassinato.

Isso demonstra, de primeira, que Raskolnikov, embora tenha criado a ideia dos homens extraordinários, não poderia ser colocado entre eles, pelo simples motivo de que ele sente culpa pelo que fez, apesar de tê-lo feito por um motivo maior, grandioso.

A tese de Raskolnikov é muito interessante. E, agora que ela foi apresentada, tenho certeza que alguns dos leitores estão pensando sem parar no “Super-Homem” de Nietzsche. E estão corretos. Mas, não cometamos um erro. É Nietzsche que se inspira em Dostoiévski e não o contrário. O fervor de Nietzsche pelo gênio de Dostoiévski não era segredo (embora, é claro, houvesse ressalvas, como sempre havia com os elogios do filósofo dos Alpes).

O conceito de “Super-homem” que Nietzsche apresenta, no entanto, é um pouco diferente do homem extraordinário que Dostoiévski põe na boca de Raskolnikov. O Super-Homem é, para Nietzsche, o estágio final da humanidade, que não é, senão um preparo, para aquele. Esse super-homem também não se rende às leis morais, nem sente remorsos, mas por um motivo diferente. Para Nietzsche, o super-homem é o fim da luta entre a moral dos escravos (cristianismo) e a moral dos aristocratas. O ser humano deve, por força da sua vontade, elevar-se acima da humanidade. Deve desenvolver sua vontade de poder, vontade de descarregar suas forças e dar o maior alcance às próprias capacidades. Ele irá superar os velhos valores e criar novos, que lhe sirvam. O Super-Homem de Nietzsche rejeita tudo e fica apenas com sua própria vontade, sem aceitar nada que o impeça de ser aquilo que ele é.

A grande diferença, para mim, nas noções do “super-homem” e do “homem extraordinário”, é que Raskolnikov não nega que a moral seja aplicável aos que não são homens extraordinários. Mas apenas que ela não se aplica a estes, enquanto Nietzsche nega a moral de todos os modos, defendendo que é por fraqueza que aceitamos a moral. Além disso, o homem extraordinário, aparentemente, segue uma moral [mora, moral, moral haha], apenas deixa de segui-la quando ela entra em conflito com seus interesses. É uma diferença sutil, penso eu, pois parece que Raskolnikov também quer crer que a moral é uma fraqueza, o que me faz pensar, por vezes, que não haja grande diferença entre Nietzsche e Dostoiévski, nesse ponto específico. Mas Raskolnikov não pôde abandonar a moral. E isso merece destaque.

Ele não pôde, e, embora seja um personagem, isso mostra um aspecto interessante da teoria de Nietzsche: a sua aparente impossibilidade de realização. Não consigo ver um homem se tornar um Super-Homem nietzschiano de modo algum. Ou melhor, talvez eu consiga, mas esse seria um psicopata. Honestamente, o remorso não é propriedade absoluta do cristianismo, embora essa religião tenda a reforçá-lo. Temos outras explicações para o remorso, talvez até melhores (Darwin, por exemplo, fala do remorso advindo de não fazer o que seria melhor para a sobrevivência da espécie) que a de Nietzsche. Para que se configure um Super-Homem na Terra [um homem completamente sem remorsos e sem moral que não seja sua criação para extravasar sua vontade de poder], é preciso um psicopata, um homem que, devido a uma patologia, não sente remorso e somente se importa com o que diz respeito aos seus interesses. Podemos dar alguns exemplos, então, de super-homens que já existiram ou existem.

Temos, também, alguns exemplos do que Raskolnikov chamou de “homens extraordinários”. Mas esses, na minha opinião, não diriam que a moral não existe ou não seguiriam nenhuma moral, apenas a burlariam para seus próprios fins.

Se eu estiver certo, parece muito pouco desejável que existam super-homens. Na realidade, sempre me pareceu que a querela de Nietzsche com o cristianismo, acrescida do seu radicalismo extremo em tudo que falou, fez com que ele simplesmente descartasse a moral por não concordar com a moral cristã (e também budista, em vários pontos). Algo imprudente, na minha opinião.

Mas, Crime e Castigo é um romance extraordinário, eu diria.

Necessariamente linda


Lá estava o Carlos, abraçado à menina, preparando o terreno pra cantada. Beijo carinhoso, abraço terno. Respostas atenciosas ao que ela dizia. Tudo orquestrado perfeitamente. A jogada, decidida no dia anterior. Uma pesquisa diferenciada para aquela ali. Graduanda de filosofia, toda intelectual, Carlos sacou logo: não podia usar qualquer coisa.

Chegou o ponto em que o silêncio durou tanto quanto deveria. Pensou consigo mesmo: é agora! Uma referência de gênio pra ganhar a racionalidade da moça. Olhando em seus olhos, acariciou-lhe o rosto delicadamente com uma mão enquanto a segurava pela cintura com a outra e sussurrou:

– Meu bem, David Lewis pode até estar certo… Podem existir outros mundos e, em alguns deles, podem existir outros “eus”… Mas te garanto que, em todos os mundos possíveis, você continua linda…

– Ownnnnnnnn…

Pronto. A filósofa estava ganha. E, pra fechar com chave de ouro:

– É sério, pode acreditar… Nem uma realidade alternativa diminuiria isso. Sua beleza não é só possível, menina: ela é necessária.

– Que lindooo! Então você tem uma opinião formada sobre a discussão das contrapartes?

Espera aí…

– Hein?

– Sabe como é, aquela velha história, será que você vai ser o mesmo em outros mundos? Será que isso é possível? Já que, pelo menos em uma coisa você vai se diferente, estando em outro mundo que não esse e tal. Um predicado de lugar esse do existir em um mundo possível, mas será que isso não altera nossa identidade pessoal? Será que, nos outros mundos possíveis, vai ser você mesmo, ou só uma contraparte sua?

– Como é?!

– Você não sabe do que eu estou falando?

Ferrou.

– Ah, claro que sei… É… Se os outros “eus” serão realmente… Hum… Bom, claro, eu seria o mesmo… É… Bom, é o que eu disse, e…

– Sério? Então, como você resolve o problema da identidade transmundial?

Pasmo, Carlos encarou a menina. Identidade transmundial? Mas que m… Procurou na mente algo com o que responder. Branco total.

Maldito David Lewis.

– Puta que pariu, meu bem, será que você não podia ter parado no “own” não?!

Pouco depois da sua jogada de mestre, foi para casa, puto da vida. De uma coisa estava certo: da próxima vez, não usaria a Wikipédia pra preparar uma cantada.

As vantagens de sofrer demais: sobre o budismo e a condição psiquiátrica dos que gostam de viver

 (texto originalmente publicado no Literatortura em 03/02/2014)

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Então sou eu oficialmente de volta ao Literatortura. Os leitores que acompanham o site desde o início devem se lembrar: eu costumava falar de filosofia às segundas-feiras por aqui. Mas tive que me afastar bruscamente e meses se passaram desde então.

A pausa se deu por vários motivos, entre eles família, universidade, existência, enfarte de alguém próximo e quase morte desse alguém e sobrevivência, graças a Deus (ou ao acaso, ou à medicina, o que parece bastante plausível), e trabalho e mais merda e a vida, o universo e tudo o mais.

Uma hora melhorou. Aí voltei como cronista no Crônicas de um ano inteiro (não conferiram ainda? Acessem, só tem gente talentosa escrevendo todo dia). Agora volto aqui.

Que modo melhor de começar do que com filosofia? Pelos velhos tempos. Falando sobre sofrimento, que tal? Posso assegurar tanto teoria (ficaremos com o budismo hoje) quanto prática. Já deu pra sofrer um pouco até o momento, e tenho absoluta certeza que a vida não vai decepcionar com mais oportunidades. Talvez seja bom, né? Pra alguém que deseja viver de literatura, é sensato lembrar Dostoiévski respondendo a uma estudante que pra ser escritor é preciso “sofrer, sofrer e sofrer”.

Certo. Já falei disso por aqui em algum lugar, mas começaremos com as Quatro Nobres Verdades do Budismo.

Primeira Nobre Verdade: Tudo é sofrimento.

Segunda Nobre Verdade: O sofrimento nasce do desejo.

Terceira Nobre Verdade: O sofrimento cessa quando cessa o desejo.

Quarta Nobre Verdade: O Caminho Óctuplo, pelo qual se alcança o cessar do desejo e a Iluminação.

As três primeiras são, a meu ver, obviamente verdadeiras. O Buda percebeu, com uma perspicácia digna de palmas, que, mesmo quando nos sentimos felizes, ainda sofremos, porque aquilo pode – e vai – acabar. Ninguém fica para sempre satisfeito. Então tudo é sofrimento.

Ninguém está sempre satisfeito porque a satisfação é sempre satisfação de alguma vontade, e é impossível satisfazer todas as vontades que temos. Daí vem a segunda verdade: o sofrimento nasce do desejo, especificamente, do desejo não realizado. E ele cessaria se não mais desejássemos. Terceira verdade.

Tudo isso está muito bem e acho bastante difícil negar que seja dessse modo. Já a Quarta me complica, não só porque o Caminho do Meio proposto pelo Buda envolve meditação e algumas atitudes que eu teria bastante dificuldade de seguir, mas também porque acho simplesmente impossível parar de desejar. Sério. Impossível. Se me perguntarem, não acredito que ele tenha conseguido. Mas deixemos isso para lá. Não pretendo argumentar por essa tese.  Mesmo que ele tenha interrompido o ciclo do desejo, não tenho intenção de seguir o exemplo: acho, bem,  a  verdade é que acho indesejável.

Desculpem o trocadilho, mas é isso mesmo. Imagina não querer mais nada? Imagina estar tudo bem, não importa como tudo esteja? Já li bastante coisa sobre budismo, uma das filosofias que mais me atraem, mas mesmo descrições belíssimas e exaltadas do Nirvana me parecem incrivelmente assustadoras. Mais ou menos como o Céu cristão. É tedioso. É inconcebível. É indesejável.

Minha quarta verdade é esta: melhor sofrer intensamente e frequentemente, mas, ainda assim, sentir-se vivo.

Quando dói de verdade é que a gente vive. Quando para de doer e você percebe, vive-se ainda mais.

Poderia ser de outro modo, mas eu sinto com toda a força essa necessidade de contrapor a alegria de um momento à tristeza de outros. Sem desejo não há critério de comparação. Sem desejo é tudo igual, sempre igual.

Sem desejo eu deixo de ser humano.

Então fico com a loucura furiosa e impossível de parar da vida humana. Fico com o desejo, e a não satisfação, e o desejo e a satisfação e o desejo e o Desejo Maior de ter mais satisfação do que sofrimento. Há beleza nisso, e todo mundo partilha um pouco essa atitude talvez clinicamente preocupante de escolher o sofrimento à paz de espírito. Sim, porque, se você parar e pensar direito, é uma posição racionalmente defensável dizer que somos todos candidatos à terapia só por realmente querer viver. Mas assumo com gosto minha condição e já iniciei a terapia. De choque, aliás. Desde que consigo me lembrar que estou me tratando. Não tem dado muito certo. Continuo gostando de respirar.

Já há algum tempo me convenci: a gente é tão feliz quanto sabe lidar com as merdas da vida. Mais ainda: somos tão felizes quanto conseguimos gostar desse vaivém de porradas e carícias que a existência nos proporciona. Olha: eu sorri hoje e isso, pra mim, já é indício suficiente de que alguma coisa de valioso deve haver neste mundo. Camus que me perdoe, mas estou bem tranquilo com a perspectiva de ser Sísifo até a morte.

É duro, é duro ser insano, mas falo sem medo: a coisa toda vale a pena.

5 personagens desprezíveis e o fascínio que eles despertam

Eu amo personagens filhos da puta. Eis uma grande verdade da minha relação com a literatura e, em última instância, com a ficção em geral. Mas não sou o único. Aposto que você, leitor, compartilha o sentimento. Não é? Você e muitos outros. Pensa nos romances de psicopatas. Claro, talvez existam algumas exceções, mas a maioria concorda: o Hannibal Lector é sensacional, e quem não se apaixonou pelo Alex em Laranja Mecânica?

Não fica por aí. Um dos personagens mais incríveis que conheço é o Coringa no Batman: O Cavaleiro das Trevas. Sou completamente apaixonado pela figura, por sua insanidade lúcida, por ele ter despertado, em mim, o desejo intenso de que o vilão ganhasse (gente, o herói era o Batman, né, isso é grave). Mas, serei honesto, se aparece um Coringa em Brasília, vou achar o cara um doente mental que precisa de tratamento, no mínimo. Não por ele queimar dinheiro, mas por ele torturar pessoas em vídeos na brincadeira, assassinar figuras públicas só para chocar e ver o circo pegar fogo só pelo gosto.

O fato é: alguma força estranha nos leva a exaltar na ficção o que condenamos na realidade. Barney Stinson é a alma de How I Met Your Mother, mas ele é o tipo de cara meio patético e nojento na vida real. Isso tudo está relacionado com uma inversão de valores bizarra e maravilhosa: a ficção nos leva a exaltar o que de outro modo condenaríamos. Basta saber contar a história. E a história fica muito melhor com esse pessoal.

Sobre os psicopatas nem falo, porque eles de fato me despertam algum fascínio na vida real. Já pensaram nisso, nunca sentir culpa? Inimaginável. Vale até um post só pro assunto, literatura e psicopatas. Agora, quanto a outras falhas de caráter, tenho absoluta certeza de que eu não amaria tanto alguns personagens desprezíveis se eles não houvessem sido tão bem construídos.

Os exemplos parecem não acabar. Mas elenquei alguns, além dos já citados, que não podem passar batido. Veja só, leitor, uma lista de alguns dos desgraçados mais adoráveis da ficção mundial:

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Fiódor Karamázov – Os Irmãos Karamázov, por Fiódor Dostoiévski

O pai Karamázov é um velho pervertido nojento e imoral. Não liga pra nada além dos seus prazeres e rejeita toda espécie de redenção com plena consciência, porque não quer ser redimido, não quer o Paraíso ou o amor divino. Ele quer a sujeira da própria imoralidade. Esta é, nos seus dizeres, a sua filosofia.

E, para quem não leu o calhamaço russo, eu digo: o livro é foda. Pode exigir algum contexto histórico para entender algumas coisas, mas vale a pena.

Aliás, Dostoiévski era mestre na arte de criar personagens no estilo que estou comentando aqui. Já leram Memórias do subsolo? Aquele é o arquetipo de um protagonista patético e, ainda assim, cativante. Tem O jogador também. A lista prossegue.

Ah, esse russo!

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Frank Underwood, interpretado por Kevin Spacey em House of Cards

O Gustavo já recomendou a série neste vídeo, mas Frank cabe aqui perfeitamente e não posso deixá-lo de fora. Que fique claro: eu amo esse homem “mais do que tubarões amam sangue”.

Frank Underwood é um congressista americano que não mede esforços para ascender politicamente. Ele se torna cada vez mais implacável à medida que a série se desenvolve e, por Deus, você começa a se apaixonar cada vez mais. A sensação é: que todo mundo se foda, o Frank tem que conseguir o que ele quer. Aí você para e pensa: puta merda, mas é isso que eu condeno nos políticos brasileiros (tirando que o Frank busca poder, não dinheiro). E tudo fica claro: Frank Underwood seria desprezível na vida real, mas, na ficção, é simplesmente impossível desgostar.

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O cobrador, por Rubem Fonseca

Se Dostoiévski fez na Rússia, Rubem Fonseca fez por aqui. Não só o cobrador, mas boa parte dos seus personagens se enquadram nesta categoria da ficção. O conto é um dos mais clássicos na literatura do autor e, penso eu, na literatura brasileira. Trata-se – num resumo que não tem possibilidade de capturar a profundidade do conto – de um homem que, revoltado com tudo e com todos, sai por aí cobrando o que os outros devem pra ele.

Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalhada inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, — que tal enfiar isso no teu cu?”

Ainda assim, o protagonista tem um senso de justiça e sabe amar. Mas é claro, eu não queria dar de cara com o cobrador. Antes que eu me declarasse, sabe-se lá o que poderia me acontecer.

Conheci a obra de Rubem Fonseca na viagem voltando de Guaíra, onde teve um encontro Literatortura. Fica aqui meu agradecimento ao Lucas Lucena, do Causas Perdidas, pela recomendação. Meu respeito eterno por me apresentar um dos melhores deste país.

Espero receber agradecimentos dos leitores que ainda não conhecem, pois quem não lê o cara perde uma experiência única na vida.

E você fica devendo. Um dia te cobram.

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Tyrion Lannister – Guerra dos Tronos, por George Martin

Ainda que ele seja meu escolhido, é impossível se restringir ao anão. Basicamente todos os personagens com alta relevância no jogo de Westeros são filhos da puta desprezíveis que amamos ler (e assistir), simplesmente porque George Martin os criou, e o homem é um mestre.

Ainda assim, Tyrion Lannister merece destaque.

Anões na literatura de fantasia eram um clichê mais que batido. Eu duvidava que pudessem criar algum personagem com essa característica que fosse bom de verdade. O peso da literatura anterior o esmagaria.

Eu estava errado. Tyrion Lannister superou tudo que veio antes.

Ele tem sua cota de dor e feridas no passado, mas continua se lascando. No momento em que ele começa a jogar… É maravilhoso. Se fosse na vida real, Westeros inteiro seria desprezível e Tyrion também. Mas, na literatura… I S2 Tyrion Lannister.

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Realmente a lista é interminável, porque não param de surgir novos desgraçados adoráveis e inúmeros já surgiram. Eu, aliás, já me voluntariei internamente como um dos responsáveis de renovar a safra. O protagonista do meu livro é bem filho da puta, devo admitir. Mas a lista fica por aqui. Acho que é o suficiente para provar meu ponto.

E você, leitor? Que personagens desprezíveis moram no seu coração? Não hesite em comentar, embora eu sinta a obrigação de dar um conselho: não se declare. Ela ou ele provavelmente iria sacanear você.